A trilha sonora do Rio Grande: a força da música gaúcha
Entre a tradição e a experimentação, a música ocupa um papel fundamental na identidade gaúcha
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Visitar o Rio Grande do Sul é uma experiência singular para todos os sentidos. Além das paisagens e dos sabores locais, os visitantes também tem a oportunidade de mergulhar em uma sonoridade única, embalada por ritmos e instrumentos próprios, uma música que está intrinsecamente ligada à história e à paisagem do estado. Conhecer a música gaúcha, com suas mais variadas vertentes, é uma forma de acessar a identidade profunda do RS, a forma como os gaúchos veem o mundo e compreendem a vida. A música gaúcha não apenas encanta, mas também ensina, conecta e resiste.
A música chegou ao estado muito cedo. Nas missões, ainda no século XVIII, os jesuítas utilizavam a música barroca, de origem europeia, para catequizar os índios guaranis. A música desempenhava um papel central na vida das reduções jesuíticas com cantos e danças que expressavam a fé e a cultura guarani. Nessa região do estado, essa herança é sentida até hoje, através da música missioneira, uma das mais celebradas dentro da tradição gaúcha.
Ao longo do tempo, a música recebeu outras influencias e continuou se desenolvendo, misturando-se aos ritmos compartilhadas com os países vizinhos, como a milonga - uma forma de música suave e melancólica, caracterizada por um ritmo pausado e reflexivo, muitas vezes associado à solidão e à vida rural do gaúcho - e o chamamé, fortemente relacionado à musica missioneira. Somaram-se a essas influências a música negra, com seus tambores, e a música trazida pelos imigrantes europeus. No século XX grandes artistas como Teixeirinha, Gildo de freitas e até mesmo Lupicinio Rodrigues se destacaram cantando a vida do gaúcho.
A era dos festivais
Mas nos anos 70 acontece um fenômeno novo com a realização da primeira California da Canção Nativa, no ano de 1971. Inspirada em festivais nacionais e de países vizinhos, o evento realizado na cidade de Uruguaiana se tornou um dos mais importantes festivais de música nativista da América Latina e é considerada patrimônio cultural do Estado. Cada edição da California revela novos talentos artísticos e composições que se tornam clássicos do cancioneiro gaúcho. Artistas como Cesar Passarinho, Leopoldo Rassier, Telmo de Lima Freitas e Mario Barbara destacaram-se no evento.
Criada durante a Ditadura Militar, a Califórnia trazia diversas composições com temas sociais, como o abandono da vida no campo provocado pelo progresso e o trabalho das pessoas simples. Outras composições inspiravam-se em lendas e na história do Rio Grande do Sul, que passou a ser estudada e preservada através das canções
Novos festivais surgiram e a música nativista se tornou um movimento que continua até os dias de hoje, celebrada em festivais como a Tertúlia de Santa Maria, a Coxilha Nativista de Cruz Alta, a Seara da Canção de Carazinho, o Musicanto de Santa Rosa, a Gauderiada da Canção Gaúcha, de Rosário do Sul, o Reponte da Canção Nativa de São Lourenço do Sul, o Ponche Verde da Canção Gaúcha, de Dom Pedrito, a Reculuta da Canção Crioula, de Guaíba, a Moenda da Canção, de Santo Antônio da Patrulha, a Tafona da Canção Nativa, em Osório, o Ronco do Bugio de São Francisco de Paula, Um canto pra Martin Fierro, de Santana do Livramento, entre tantos outros.
Do Rio Grande do Sul para o mundo
Logo o impacto da música chegou à programação de emissoras de rádio e televisão, com horários inteiramente dedicados ao estilo. Também surgiram gravadoras e um público amplo e fiel. Esse cenário musical estimulou novas gerações de artistas, a maioria dos quais não havia nascido quando a primeira Califòrnia foi realizada em 1971.
Hoje a música gaúcha é praticamente onipresente em todo o estado e pode ser ouvida nos mais variados espaços, no carro através de uma transmissão de rádio, como música ambiente em um restaurante ou em uma apresentação ao vivo. Pode-se também dizer que já conquistou espaço em palcos ao redor do mundo, levada por artistas como Yamandu Costa, Renato Borghetti ou por grupos folclóricos.
Entre a tradição e a experimentação, a música gaúcha mantém-se viva. Seja em um churrasco de domingo, num fandango animado ou até mesmo como companhia para um mate solitário em um momento de contemplação, ela ocupa um papel fundamental na identidade gaúcha e é a trilha sonora perfeita para quem deseja viver o Rio Grande do Sul.